Livroreview #01 – “O Mago”, de Fernando Morais

São poucos os nomes de brasileiros que, pronunciados em qualquer lugar do exterior, são bem recebidos. Da limitada lista, cito sem dificuldades Pelé, Ayrton Senna e, mais recentemente e com ressalvas, o presidente Lula. Mas a lista fica incompleta sem um sujeito que no Brasil é mais famoso pelas críticas pesadíssimas que sofre do que por sua obra em si: o escritor, compositor, palestrante, ‘mago’ e milionário Paulo Coelho.

Para contar a história desse personagem singular, escolha justa: o jornalista Fernando Morais (‘Chatô – O Rei do Brasil’, ‘Na Toca dos Leões’), cada vez mais especialista em biografias. Com base em uma extensa pesquisa, o livro ‘O Mago’ (ed. Planeta, 2008) relata de maneira leve e completa fatos importantes e curiosos do nascimento ao auge de Coelho. O autor faz uso de uma imensa database de fitas de áudio e diários mantidos pelo escritor desde sua infância, totalizando uma invejável fonte de informações que Morais não conseguiu desfrutar em outros biografados.

Paulo teve uma adolescência mais do que conturbada, incluindo aí três internações em uma ‘Casa de Saúde’ (singelo eufemismo do local para um manicômio) por conta de seus pais. Mas antes de nos levar a sua vida em ordem cronológica, o primeiro capítulo é estratégico e recurso recorrente do autor: uma introdução de todo o poder e fama que cerca seu personagem, reconhecido onde quer que pise. Uma figura que autografa seus livros por horas sem que leitores parem de chegar, mas não deixa de fazer três preces diárias e consultar o I Ching antes de qualquer decisão.

Além de seus inúmeros romances (até se estabelecer com a artista plástica Christina Oiticica), do processo de escrita de seus livros e das experiências com drogas, satanismo e esoterismo, a obra retrata suas ecléticas profissões: jornalista (!), executivo fonográfico, ator e, claro, a parceria de ouro como letrista ao lado de Raul Seixas, rendendo músicas únicas que deram um novo gás ao rock nacional.

Mas o sonho de ser um ‘escritor consagrado e lido no mundo inteiro’, como sempre dizia, sempre permaneceu – e não estava nem perto de se concretizar até seus trinta e poucos anos. É mesclando cotidiano, fatos curiosos e essa jornada (tudo ilustrado constantemente por fotos do arquivo do autor e de amigos) que Morais deixa a leitura ainda mais interessante.

É interessante notar ainda, com base nas declarações de Coelho ao longo de sua vida, uma certa presunção, um ego inflamado, um status ‘cult’. O auge desse sentimento talvez seja justamente nas primeiras páginas de ‘O Mago’, quando Paulo se surpreende e enfurece por não haver jornalistas e fotógrafos a sua espera quando desembarca no Leste Europeu para uma série de eventos.

“Ao cruzar a vidraça depois de passar pela alfândega, descobre, visivelmente desapontado, que seu nome não está em nenhuma das placas exibidas pelos agentes de turismo à espera dos passageiros daquele voo. E, mais grave, não estão à sua espera fotógrafos, repórteres ou câmeras de tv. (…)Faz uma chamada internacional pelo telefone celular e rosna em português, com forte sotaque carioca e voz levemente fanhosa:
– Não ninguém à minha espera em Budapeste! Sim! Foi isso mesmo que você ouviu!
Repete palavra por palavra, como se quisesse martelar cada uma delas na cabeça do interlocutor.
– Isso mesmo: não-há-ninguém-à-minha-espera-em-Budapeste. ” (pg. 12-13)

Com a mesma genialidade das biografias anteriores, mas com um ritmo mais leve, Fernando Morais conseguiu de novo. Suas 630 páginas passam mais rapidamente e com menor esforço do que Chatô ou Olga, que possuem informações demais e acabam cansando um pouco o leitor. Ficamos, entretanto, reféns do caráter ficcional do autor, pois o mesmo não estava presente durante a vida do escritor e é refém apenas das declarações do mesmo em muitas passagens cruciais de sua vida que não são fáceis de acreditar.

Mesmo sendo você um dos muitos que não apreciam a literatura de Paulo Coelho (e eu me incluo nessa), não dá para negar que a história dele é fantástica. E contada do jeito que é pelo autor, não há preconceitos que impeçam qualquer um de conferi-la. 9/10

Tags: , , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: