Os Trombadinhas (1979) – Um manifesto ideológico sobre a delinquência juvenil na sociedade contemporânea. E o Pelé policial.

Nos quadrinhos, algumas situações pensadas pelos roteiristas são tão absurdas e fora do convencional que não são incorporadas na cronologia oficial de um personagem, mas ainda assim são lançadas como um suplemento. Alguns desses volumes são os “What if?” (E se…?, em tradução livre), que mostram o que aconteceria caso o Homem-Aranha integrasse o Quarteto Fantástico ou se o Capitão América fosse candidato a presidente dos Estados Unidos.

É mais ou menos isso que acontece em “Os Trombadinhas”, filme de 1979 estrelado por Paulo Goulart e Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. A história é a seguinte: interpretando a si mesmo, o Rei do Futebol aposentado volta ao Brasil após jogar no New York Cosmos por algum tempo. O normal seria ele cuidar de uma escolinha de futebol, mas e se Pelé se tornasse um policial?

                                                       

Explico: na história, um ricaço (Goulart) atropela um trombadinha e começa a se preocupar com a situação das crianças de rua da cidade. Aos poucos, ele percebe que precisará de uma ajuda adicional para tirar os menores dessa situação, já que são homens poderosos que controlam o crime. Aí vem a ideia genial: contratar Pelé para sua campanha contra a delinquência juvenil.

Para fazer um comercial de TV e usar sua imagem para arrecadar fundos? Dar uma palestra contando sua história para servir como exemplo? Não, não. Solte sua imaginação e acompanhe o raciocínio do roteirista: o empresário vivido por Goulart decide integrá-lo à polícia como investigador, para correr atrás dos menores e descobrir a fonte dos pequenos criminosos para acabar de uma vez com esse problema. Óbvio, não?

Esse é um dos fatores mais geniais do longa: Pelé é Pelé, não um personagem genérico. Imagine você como um trombadinha que acabou de furtar uma bolsa. Ao sair em disparada, um “tira” (sim, eles usam essa expressão!) corre atrás de você para recuperar o objeto perdido. Ao olhar para trás, você não vê um sujeito com ar de malandro, bigodudo e sem preparo físico – como é o outro homem da lei que acompanha nosso herói-, mas Edson Arantes do Nascimento em pessoa e logo após a aposentadoria, nove anos após a conquista da Copa do Mundo de 1970!

Aí temos que falar algumas verdades: Pelé não sabe atuar. Ponto. É muito bizarro vê-lo ao lado de Paulo Goulart, por exemplo, que tem uma carreira gigantesca na televisão, no cinema e no teatro, ou da direção de Anselmo Duarte, que fez o excelente “O Pagador de Promessas”. As falas ditas por ele não são atuação, mas também não são resultado de leitura. É uma artificialidade maluca, que denuncia que ele simplesmente não serve para a função.

Paulo Goulart refletindo um provável “o que diabos estou fazendo aqui?”

Voltando ao filme: logo nos primeiros 20 minutos, somos surpreendidos por discursos totalmente politizados sobre a violência e o crime na socidadem que, em vez de parecerem linhas de um roteiro, parecem saídos de panfletos militantes. Algumas falas são apenas pretextos para longos monólogos sobre o quão mesquinho é o ser humano, que só ajuda quando o assunto remete à própria família, ou como os trombadinhas são vítimas de uma corrupção ainda maior.

Além do argumento sobre salvar as crianças, o filme ainda aborda levemente o ciclo vicioso do crime, pois um dos bandidos quer sair e ter uma vida normal, mas é impedido pelos peixes maiores. Outras falas soltas falam sobre a responsabilidade (com Pelé metaforizando a vida com um pênalti no futebol) e até, veja só, uma tiração de sarro sobre faculdades de Humanas.

Fora o conteúdo dessa pérola, as partes técnicas também merecem uma citação. Os cortes feitos entre as cenas ultrapassam a barreira do amador. Você vai de uma fala na clínica pro escritório do juiz, aí pra delegacia, pras ruas, pro campo de futebol e novamente pra delegacia, com tesouradas repentinas, imediatamente depois do fim de um diálogo. O único momento de destaque aqui é a alternância entre duas explicações táticas: uma do chefe dos bandidos aos trombadinhas sobre como roubar e a outra de Pelé ensinando jogadas para seus alunos. Apesar de nonsense e inútil, é uma edição criativa.

Ah, a cena que ficou consagrada no YouTube está lá. Surge na última meia hora e é a melhor do filme, de longe. Ainda assim, duas sequências posteriores também deveriam virar de conhecimento geral: em invasões a casas que pertencem aos bandidos, o Rei do Futebol dá uma demonstração de suas habilidades com artes marciais, ganhando dos capangas na porrada. Além disso, a música dos créditos é cantada por ele, mas não tive coragem de ouvir até o final.

“Olha que eu te dou uma bicicleta, entende?”

Em resumo: som, imagem, roteiro e quase todas as atuações são dignas de uma pornochanchada, que estava em seu auge na época – mas nenhum rastro de sacanagem é visto. Mesmo assim, é uma pérola do cinema nacional que merece ser vista por fãs de filmes da época e de conteúdo trash. Digo sem medo que é um dos filmes mais ecléticos que já vi: tem futebol, perseguições a pé e entre carros, política, romance, música punk e o Pelé. É, o Pelé. Não o Jô Soares, sua piranha.

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3 Respostas to “Os Trombadinhas (1979) – Um manifesto ideológico sobre a delinquência juvenil na sociedade contemporânea. E o Pelé policial.”

  1. O desastre da série da Mulher Maravilha « Terrivialidades Says:

    […] qualquer forma, parabéns aos executivos da emissora, que tiveram a coragem de rejeitar essa bomba. Era melhor ter ido ver o filme do Pelé. Like this:LikeBe the first to like this […]

  2. “Os Trombadinhas” (1979) « História(s) do Sport Says:

    […] https://terrivialidades.wordpress.com/2011/06/20/os-trombadinhas-1979-um-manifesto-ideologico-sobre-a… […]

  3. A tropa de elite de Steven Seagal « Terrivialidades Says:

    […] entrega, ajoelha, levanta as mãos, olha para cima e vê…Steven Seagal te apontando um taser. Seria ainda mais legal se fosse o Pelé, mas deve ser um nível inimaginável de […]

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