A jornada dos heróis do metal

Você conhece a jornada do herói? Ela é um estilo temático que serve como base para várias obras literárias, pois resume a história de um protagonista que passa da normalidade para a imortalidade. A tal jornada está escrita em Star Wars, Matrix e muitas outras sagas de sucesso que, mesmo que inconscientemente, seguem os tais 12 passos descritos pelo pesquisador Joseph Campbell. Eles envolvem o início, a aceitação do sonho, a jornada em si cheia de desafios – e falhas – até o sucesso completo (ou não).

Longe dos filmes de ficção, o alvo da jornada do herói que conheci recentemente é uma banda de heavy metal. Nascida em Toronto em 1978, a Anvil (bigorna, em inglês) é citada por Lars Ulrich, Slash e Lemmy como um excelente grupo e uma referência na própria música tocada por eles, que são músicos cultuados no estilo. Com esses elogios, quem somos nós para discordar?

Em “Anvil – the story of Anvil”, de 2009, ficamos sabendo que não é tudo tão fácil. O documentário, filmado por um ex-roadie do grupo, não tenta relatar a biografia da banda e seus maiores shows, como seria o normal. Em vez disso, somos apresentados ao mundo real, com os integrantes trabalhando para sustentar a família, envelhecendo e passando nas ruas como se não fossem grandes ídolos, mas simples cidadãos canadenses.

O que poderia ser a celebração da vida de Lips (vocal principal, guitarra), Robb (bateria), Glenn (baixo) e Ivan (guitarra), acaba sendo um longo depoimento sobre uma banda que tentou, tentou e não chegou ao topo das paradas, amargando um ostracismo forçado pelo esquecimento. Após brilharem na década de 1980 e fazerem multidões balançar a cabeça, vemos nossos heróis tocando para dois dígitos de pessoas em locais sujos e mal-iluminados do Leste Europeu – sem receber uma única moeda para isso, claro.

Entrevistas com as famílias dos músicos mostram que o sucesso e o amor ao rock ‘n roll sempre os motivaram, e que eles não emplacaram por motivos que parecem misteriosos. Seria a falta de gerência, de vendas ou apenas de sorte? Impossível saber o porquê, pois é fácil chegar à conclusão de que trata-se de um material de qualidade (porém meio datado) ao ouvir o som da banda, como o álbum “Metal on Metal”, que conta o o hit de mesmo nome. E mesmo com a falta de reconhecimento, os caras não desistem. Dão uma lição de amor ao que fazem e perseverança, mesmo quando eles são os únicos a acreditarem que aquilo vai dar certo.

“É, rapaz, não tá fácil pra ninguém”

É aí que voltamos à jornada do herói: ao passarem de garotos do mundo comum para as inúmeras provações difíceis ou traumáticas que a vida e a indústria fonográfica os impuseram, os roqueiros da Anvil não viram quase nenhuma recompensa em dinheiro, mas apenas no formato de elogios e dedicação dos fãs da banda. A ressurreição, entretanto, um dia iria chegar – e o próprio documentário é uma prova disso, ao ajudar a elevar a moral e a mitificar o grupo.

Com o foco em Lips (absurdamente simpático e durão, quando necessário) e Robb (o quase-irmão calado, mas sempre presente), senti apenas um pouco de falta da maior participação dos demais membros da banda, mesmo que eles não sejam os astros desse show. E, acredite, esse talvez seja o único defeito do documentário, que tem um dos finais mais emocionantes que já vi no gênero. Pois é, mesmo sendo sobre uma banda de metal, os com riffs pesados, os cabelos compridos, os gritos e as roupas pretas, é possível . E a paixão pela música, que sempre vai existir, independentemente do estilo. 9/10

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