O passado obscuro de um Quarteto (nada) Fantástico

Tirando algumas poucas exceções, o final da década de 1980 e o início dos anos 1990 são dignos de esquecimento para os filmes de super-heróis. Cito fácil algumas pérolas:

1987 – Super-Homem IV

1989 – O Justiceiro

1991 – Capitão América

1994 – Quarteto Fantástico

1995 – Batman Forever

1996 – Fantasma

Peraí, Quarteto Fantástico?! É isso aí. Antes do filme milionário de 2005, uma tentativa já havia sido feita para transportar os heróis da Marvel para as telonas. Como você provavelmente nunca ouviu falar nesse filme, deve imaginar que ele deu muito errado. Imaginou? Pois se esforce um pouco mais: ele foi ainda pior.

Não sei quanto a vocês, mas dou risada só de olhar para essa foto.

Antes do filme em si, uma aulinha de História Nerd.

O ano era 1992 e a produtora alemã Constantin Films estava desesperada. No final de dezembro, seus direitos de filmagem do Quarteto Fantástico perderiam a validade e retornariam para a Marvel. O supergrupo foi o primeiro criado pela editora e uma das séries mais famosas e rentáveis de Stan Lee, portanto era fonte de dinheiro em qualquer mídia – daí a preocupação do estúdio.

Em uma medida perigosa e desesperada, a Constantin resolveu juntar cerca de US$ 1 milhão como orçamento (quando o esperado era 40 vezes mais) e fechar uma parceria com Roger Corman, diretor e produtor de filmes de terror e ficção científica de baixíssimo orçamento. O objetivo era começar um longa antes do final ano para salvar a perda dos direitos e lançar o resultado na medida do possível.

O cargo de diretor foi encarregado a Oley Sassone, um ilustre desconhecido. Igualmente anônimos eram os atores do filme, já que rostos conhecidos implicariam em mais gastos. Em apenas 25 dias de 1993,  Corman e sua equipe filmaram o longa. Em eventos de quadrinhos e coletivas, o elenco falava confiante que a adaptação seria um sucesso. A estreia até estava marcada para um cinema em Minnesota, em 1994.

Não, não e não. Tá tudo errado.

Aí vem o plot twist: devido ao baixo orçamento, dificuldades técnicas e resultados abaixo do esperado (além de pura sacanagem), a Constatin resolveu jogar o filme já finalizado no limbo, isso no final de 1993. Como a produção havia sido feita, a produtora continuava com os direitos de filmagem – que serviram para o filme com Jessica Alba e companhia, lançado 12 anos depois. Que história!

Hoje, o filme consegue a façanha de ser raro até mesmo na internet. As cópias disponíveis são ripadas de um VHS milagrosamente gravado por alguém, mas com áudio abafado e imagem serrilhada. A conclusão que tirei? Acredite: não lançá-lo foi uma excelente ideia.

Quarteto Fantástico começa dez anos antes da formação do supergrupo, em uma universidade. Reed Richards (futuro Sr. Fantástico) e Victor von Doom (futuro Doutor Destino) são colegas que criam um aparelho esquisito para captar energia de um cometa que passará pelo planeta. O experimento dá errado e Doom aparentemente morre por causa de uma descarga elétrica, enquanto Reed é salvo por seu amigo Ben (o futuro Coisa). Há ainda uma introdução ao ainda criança Johnny (o futuro Tocha-Humana) e a adolescente Sue (futura Mulher Invisível).

O filme avança para o presente, quando um módulo espacial contendo os quatro personagens está prestes a decolar. Para isso, é utilizado um diamante, que é pretendido por Doom e o Joalheiro, um inimigo criado para o filme. O vilão troca a pedra por uma cópia e, por isso, a viagem espacial dá errado e o foguete cai na Terra com os pilotos ainda vivos, porém atingidos por um banho de “raios cósmicos”, seja lá o que isso for. Ah! Temos ainda a coadjuvante Alicia, uma escultura cega que é interesse amoroso de Ben e do tal vilão (sério, o Joalheiro rouba a jóia só para dar de presente à moça, nada de dominação mundial ou algo assim).

Jeweler, o vilão criado só para o filme. Óbvio que não sairia algo bom.

Aí começam a surgir os poderes: Ben (ainda sem a aparência bizarra) mostra superforça, Susan está invisível sem saber, Reed tem um braço elástico e Johnny….espirra e taca fogo em um arbusto (juro).

A história segue com um plano diabólico do Doutor Destino, que sequestra os heróis, mas deixa eles escaparem só para capturar de novo no final do longa. Há um arco extremamente chato do Joalheiro com Alicia e Ben (a velha história do “eu me tornei um monstro e bla bla bla”), que só faz com que a luta do Quarteto com os capangas e o vilão principal demorem ainda mais. Sério, a primeira cena de ação do supergrupo é com 56 minutos de projeção – e a espera não vale, já que tudo é absurdamente trash.

Dr. Destino, que ficou tão caricato quanto um vilão de tokusatsu.

Ao final, Doom é derrotado por Reed, enquanto Johnny se joga na frente de um raio para impedir o plano do vilão. A última cena, claro, é o casório.

Final digno de novela.

Em resumo: enquanto o Coisa lembra mais uma almôndega do que um amontoado de pedras, o vilão Doutor Destino parece usar uma fantasia de plástico. As partes brancas pintadas no cabelo do Sr. Fantástico não enganam ninguém. E o Tocha Humana é tão insuportável quanto o personagem de Chris Evans no filme mais atual.

Tenha medo se um braço vier assim em sua direção.

Os efeitos são péssimos (principalmente dos poderes dos personagens), as atuações são amadoras e os diálogos são mais estúpidos do que qualquer coisa escrita pelos mais fracos roteiristas que já passaram pela Marvel. Talvez ele até alcançasse a Sessão da Tarde, mas seria um daqueles filmes que a gente prefere esquecer. Com US$ 1 milhão, era mesmo quase impossível fazer um filme decente do Quarteto Fantástico – e a gananciosa e esperta Constantin Films só ajudou a provar essa teoria.

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Uma resposta to “O passado obscuro de um Quarteto (nada) Fantástico”

  1. Felipe Says:

    Obrigado por ter feito o trabalho sujo de assistir a isso e nos contar como é. Assim, eu não preciso passar pela sessão de tortura.🙂

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