Um supergrupo não faz um superfilme

Em 2012, veremos o projeto mais ambicioso da história das adaptações de quadrinhos para o cinema. “Os Vingadores” vai colocar lado a lado alguns dos maiores heróis da Marvel, que mantém uma estratégia quase perfeita nos filmes solo de Thor, Homem de Ferro, Capitão América e Hulk (lembrando que ainda existem os coadjuvantes da SHIELD).

Do lado da DC, a aposta continua em filmes solo de Batman e Superman. Há alguns anos, entretanto, um filme da Liga da Justiça foi fortemente cogitado – com atores jovens e desconhecidos, diferentes dos que interpretam os super-heróis normalmente. O projeto caiu no limbo e hoje sequer é lembrado pelos fãs. Mas acontece que essa não foi a única tentativa de levar o supergrupo em carne e osso ao público.

Em 1997, a CBS (de CSI, Two and a Half Men, The Big Bang Theory e o Big Brother original) produziu um episódio piloto duplo para um seriado envolvendo os grandes astros da DC. O fato de ele ser tão obscuro, para variar, não é coincidência: ele foi rejeitado e todos que participaram da brincadeira tentam esquecer o ocorrido. Bom, eu assisti ao episódio.

Seguindo a recente “linha editorial” do Terrivialidades, com vocês….Liga da Justiça!

Alguém sabe onde é a festa à fantasia?

Dirigido por Félix Enríquez Alcalá (que apenas comandou alguns episódios avulsos de vários seriados) e estrelado por uma cambada de desconhecidos, o piloto foge do convencional dos filmes de herói e propõe um estilo documental. Não aqueles com câmera tremida e planos longos que viraram moda, mas o documentário clássico, com depoimentos e tudo mais. E o que diabos isso tem a ver com a Liga de Justiça? Se você souber a resposta, favor compartilhar. Nesse quesito, surpresa!O filme fracassa miseravelmente. E como o flerte com o gênero era a maior aposta do material, dá para imaginar que as preocupações segundárias também não são fáceis de engolir.

Com isso, os primeiros minutos fazem parte de uma colcha de retalhos mal-costurada. Flashes dos personagens dando depoimentos e em situações da vida real alternam-se de maneira caótica e sem uma edição de qualidade, cansando facilmente quem não estiver no clima de assistir a tudo aquilo. E acredite: pra frente, fica tudo pior.

Peraí, quem trocou de canal e botou no Discovery?

Bom, avançando: somos apresentados à protagonista Ice, uma “moça do tempo” nerd, anti-social e atrapalhada, que fica ainda mais esquisita quando a atriz que a interpreta não colabora muito. Em seguida, vem Barry Allen, o Flash; Guy Gardner, o Lanterna Verde; B. B. da Costa, a heroína Fire; e Ray Palmer, o Eléktron.

Caso você não tenha percebido, esses são os componentes da Liga da Justiça. Peraí, como é que é? Cadê o Batman, o Super Homem a Mulher Maravilha e, vá lá, o Aquaman, os outros membros mais famosos do supergrupo? Tudo bem que temos Flash e Lanterna, mas Eléktron é de segundo escalão, enquanto Ice e Fire são da Liga da Justiça Internacional, gibi lançado alguns anos antes do piloto. Ao ignorar os maiores astros da Liga, o piloto erra feio, já que a equipe nunca consegue manter uma identidade – fica um espaço vazio ali, como se todos estivessem esperando a chegada de um dos heróis do primeiro escalão para liderar aquilo tudo. Bom, se eles convencerem no papel, então tudo bem. Mas…é claro que eles não convencem.

Vamos começar pelas cenas de ação: a primeira grande atividade do grupo é realizar pequenos resgates durante uma tempestade. Enquanto o Lanterna impede um poste de luz de cair sobre uma criança e Fire resgata operários de escombros, Eléktron diminui e tamanho para salvar um gato amedrontado que se escondeu debaixo de uma casa. Parabéns, super-herói.

Vai dizer que isso não lembra Chapolin?

Se as cenas de ação falham, imagine só as tentativas de humor. E é isso mesmo: elas não funcionam de jeito nenhum e subestimam demais a inteligência do público – poxa, nem na Era de Ouro as tiradas eram tão bobinhas! Alguns críticos até falaram que se trata de um “Friends” com superpoderes. A cena que me fez quase desistir de escrever isso aqui é quando o Flash anuncia que preparou o almoço e, em seguida, come tudo o que tem na mesa com supervelocidade. Ha. Ha. Ha.

Aliás, se há algo engraçado, esse algo é notar que os heróis parecem saídos dos Power Rangers. Durante a maior parte do filme, eles vestem a mesma cor característica de camisa (o Flash está sempre de vermelho e Ice de azul ou branco, por exemplo), fora a comunicação, que é feita por bipes.

Voltando: há ainda um vilão, criado especialmente para o piloto. Isso NUNCA dá certo, como diabos ninguém aprende? Enfim, Weatherman (que controla o clima, como a Tempestade) mostra-se desinteressante e caricato. Não vou entrar em mais detalhes, porque não vale a pena e você realmente não está perdendo nada.

Fluxo de consciência: Weatherman me lembra Weather Girls, de “It’s raining men”.

Os efeitos especiais são de baixíssimo orçamento e não escondem que são 100% (mal) computadorizados. Mas os uniformes são um show a parte: quando Guy coloca seu (ridículo) uniforme, percebemos que o Lanterna Verde é meio azul. O LANTERNA VERDE É MEIO AZUL. O. LANTERNA. VERDE. É. MEIO. AZUL.

Calma, você não ficou daltônico: falta verde no Lanterna Verde.

De todos os pilotos não aproveitados que assisti, esse talvez foi o que mais me deu trabalho. Eu não conseguia acompanhar 5 minutos da trama sem pensar em sair e fazer outra coisa, tamanho é o desinteresse que ela passa. As atuações horrorosas e os efeitos limitados também não ajudam em nada. E não dá para esperar um Liga da Justiça com atores ruins e poderes mal-feitos, dá? Além disso, eles passam 80% da projeção sem os uniformes, agindo em disfarce – não tinha ninguém para lembrar que aquilo era um filme de super-herói de quadrinhos

Bom, esse também é um dos mais escassos em termos de informação. Na fonte mais completa que achei, a Wiki, consta que o piloto nunca foi exibido nos EUA, mas sim no Reino Unido, na Costa Rica e…no Brasil, pelo SBT. Óbvio que foi no SBT.

O trailer é fanmade e a música é do desenho, mas dá para vocês terem uma ideia.

Ufa! Aos fãs de quadrinhos em geral, resta rezar todos os dias para que “Os Vingadores” não tenha nenhum traço desse piloto rejeitado. Pois esse Liga da Justiça de 1997 nos prova a velha frase do Tio Ben, mesmo que ele seja da empresa concorrente: grandes poderes (no caso, grandes ambições) trazem grandes responsabilidades (e, aqui, grandes fracassos).

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