Original x Remake #01 – A Hora do Espanto

O que você faria se o seu vizinho fosse um vampiro? Morreria de medo, se trancaria no quarto e esperaria a criatura limpar as redondezas e trocar de lugar ou partiria para cima do monstro, fazendo de tudo para proteger sua namorada e lutando ao lado de um ídolo?

É a segunda alternativa que define “A Hora do Espanto” (Fright Night), um dos filmes mais sensacionais da mistura de terror com comédia adolescente que invadiu a década de 1980. O jovem Charlie descobre o terrível segredo de Jerry, um sedutor vampiro que está atrás de Amy, o par romântico do rapaz. Para combater o morto-vivo, ele faz uma união com Peter Vincent, ícone da televisão que deveria ser um especialista em matar essas criaturas, mas não passa de um charlatão.

Em 2011, o clássico ganhou uma nova versão, bem mais moderna, com novos efeitos especiais e uma safra de atores jovens. Mas será que valeu a pena refilmar “A Hora do Espanto”? E, se o filme não se sustentar como remake, será que ao menos um bom entretenimento? Em cinco quesitos, tento responder isso e mais um pouco na nova seção do Terrivialidades, o Original x Remake!

O protagonista

Charlie Brewster foi bastante modificado. No filme original, ele é um garoto ingênuo, porém leal aos amigos e heroico quando necessário. Além disso, é aficcionado por filmes de terror, especialmente o programa apresentado por Peter Vincent – quase um “Cine Trash”, aquele com o Zé do Caixão na Band. Ele tem muitas dificuldades em superar Jerry, já que é um adolescente comum. A atuação de William Ragsdale não é incrível, mas dá conta. A relação com a namorada é a melhor possível e ele realmente gosta da garota – algo raro hoje em dia, se levarmos em conta o outro Charlie.

Isso porque a versão de Anton Yelchin é um legítimo “pé no saco”. Para ser cool, ele desfez a amizade com um colega de longa data porque a galera descolada não poderia ver ele andando por aí com um nerd. A virada de mesa e a transformação em um herói é tarde demais, soando falsa e sem sentimento. Além disso, ele só virou um imbecil para dar uns pegas no par romântico – que de romântico não tem nada, já que fica claro que o interesse de Charlie é puramente o sexo. Ainda assim, ele parece muito mais determinado e preparado que o personagem original, sendo capaz de ferir Jerry sem pensar quando tem a chance.

A vitória vai para o Charlie de 1985, um legítimo heroi comum, um protagonista simpático e envolvente, com quem nos identificamos facilmente. Um a zero para o original.

O vampiro

O Jerry original tem um ar aristocrático, característico das criaturas clássicas. O cara é simpático, galã e inteligente, mas mortal – tudo o que Bela Lugosi ensinou um vampiro a ser no “Drácula” de 1931. Apenas percebemos sua agressividade e seus instintos mais primitivos durante as sequências finais, quando a situação está contra ele. Chris Sarandon consegue transparecer todas essas características com segurança, nos deixando com medo daquele vizinho esquisito que todos têm.

O Jerry do remake é o destaque do filme. Colin Farell vem fazendo trabalhos cada vez melhores em personagens que exigem bastante. Aqui, temos um vilão mais falante, que faz piadinhas e tem tiradas ótimas. Além disso, a agressividade é mais presente, com cenas violentas e investidas muito menos sutis. Por fim, em vez do ar clássico e as roupas que mostram apenas o rosto atraente, o Jerry do remake fica com os braços de fora o tempo todo, dispensando a típica sedução psicológica do vampiro.

Aqui temos um empate técnico. São personagens bem diferentes e eficientes. 2×1.

Os coadjuvantes

Peter Vincent (cujo nome é uma homenagem a Peter Cushing e Vincent Price, dois grandes atores do gênero) ganhou uma nova versão: em vez do apresentador de programas de terror na TV, ele foi modernizado para um mágico com truques sobrenaturais. David Tennant atua muito bem no novo longa, mas, conhecendo o personagem de Roddy McDowall, não há como simpatizar com esse aqui, que consegue ser ainda mais chato que o Charlie do começo do longa.

O Peter Vincent do original é um senhor de idade covarde e amargurado, que se arrepende de seus atos ao ver em um fã adolescente a paixão pelo sobrenatural e a fé que ele já não tem mais. No remake, é apenas um bêbado arrogante que, por uma ligação antiga com Jerry, resolve ajudar Charlie durante a ação.

Evil Ed, o melhor amigo de Charlie, foi desfigurado. De um garoto esquisito (Stephen Geoffreys) bastante amigo e troll, ele virou um nerd magoado – e é interpretado pelo cara que sofreu o maior typecasting dos últimos anos: Christopher Mintz-Plasse, o McLovin, praticamente repetindo o papel que o consagrou. Quando transformados, entretanto, ambos estão na mesma altura.

A namorada de Charlie também mudou: de uma garota insegura e indefesa no original (Amanda Bearse) para uma quase-mulher atraente e de bastante iniciativa (Imogen Poots). Apesar da personagem antiga ter mais importância na trama, aqui a disputa é equilibrada.

Na soma dos placares, outra vitória do original. 3×1!

Os efeitos

Aqui não tem papo: no remake, a maioria dos sustos são feitos pelo aumento da trilha sonora, para variar. Já os efeitos visuais são bons na composição do vampiro, mas o sangue, que faz parte do efeito 3D do filme, é artificial demais. Os corpos queimando não ficaram ruins, mas não sou o maior fã de CGI nos filmes de terror, ainda mais quando ele pode ser evitado.

Em 1985, a boa e velha maquiagem fazia coisa muito melhor. O gore é tão exagerado que se torna divertido e o sangue verde do vampiro impressiona, mas não passa nojo. O rosto modificado é o mais simples possível – e assustador, que é o que importa.

O original leva de novo e se distancia! 4×1!

A história

A vitória já está certa para o filme original, mas será que o remake não consegue um pontinho extra?

Não. Isso porque o ritmo do filme de 2011 cai assustadoramente depois de uns 50 minutos de projeção. A partir da fuga dos personagens pela estrada, você conta cada segundo até o final do longa, percebendo que ele insere elementos dispensáveis e que só estão lá para impressionar visualmente. No filme original, isso não acontece e tudo passa rápido até demais – por isso temos até uma sequência que é igualmente divertida.

As modificações, exceto as feitas em Jerry, ficaram bastante inferiores. Uma das tramas mais legais do filme era o desapontamento de Charlie com Peter Vincent e a vontade dele em ajudar o garoto, mesmo sendo ele só uma farsa criada pela televisão. No remake, além do personagem estar totalmente descaracterizado, há uma trama envolvendo ele e Jerry que dá vergonha pela cafonice.

Apesar disso, o remake respeita bem a mitologia dos vampiros, faz referências e boas piadas, o que algo respeitável em épocas de “Crepúsculo”. Mas isso não é o suficiente: o original é inteiro uma grande homenagem, tem uma história com começo, meio e fim, passa em um ritmo gostoso e é entretenimento com classe.

Virou goleada! 5×1 para a versão de 1985!

Placar final

O “A Hora do Espanto” original é feito por quem gosta do gênero e queria prestar uma homenagem bastante sincera. Ele está um pouco datado, mas tem aquele clima da época que é irresistível no terror. No mais novo, apesar da produção bem feita, não consigo sentir isso na mesma intensidade.

Mas o remake não é um filme horroroso e dispensável, podendo valer como um passatempo. O problema é que ele não existiria se não fosse esse clássico do gênero. Vendo o de 1985, o de 2011 fica (ainda mais) fraco e previsível – e a comparação, como em todos os casos de refilmages, é inevitável e quase sempre pendendo para o original.

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2 Respostas to “Original x Remake #01 – A Hora do Espanto”

  1. cyro Says:

    Concordo com vc em tudo.O original é mil vezes melhor, e é um clássico, que não ficou datado, fazendo sucesso até hoje.
    Assisti na estréia, vi mais de 100 vezes o filme, comprei a trilha sonora, e consegui até a foto americana do estúdio do “Evil”, Stefhen.O primeiro forever.

  2. André Says:

    O primeiro filme marcou minha adolescência. Foi um impacto para os meninos da minha geração; sem falar a trilha sonora do original que é muito boa! Esse remake foi totalmente insípido, inodoro e incolor…

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