O rei das selvas virtuais

Você gosta de jogar video games? Mesmo? Do tipo que passa o dia inteiro jogando a mesma coisa? Do tipo que participaria de campeonatos e, principalmente, do tipo que detém o recorde mundial de pontuação do seu jogo favorito? Ainda está balançando a cabeça positivamente? Bom, e se esses títulos foram lançados há 30 anos ou mais?

Essa é uma realidade completamente diferente das dos “gamers casuais”, que levam a jogatina na brincadeira e preferem só os maiores lançamentos da indústria. Mas ela existe – e é retratada com muita personalidade em “The King of Kong : A Fistful of Quarters”, um documentário de 2007 sobre a rivalidade entre dois jogadores profissionais de Donkey Kong que lutam pelo recorde mundial do clássico.


Lembrando que Donkey Kong é aqueeele jogo de plataforma vertical inicialmente lançado para os fliperamas em 1981 que marca o primeiro aparecimento do gorila que dá nome ao game, do Mario (ainda sem nome) e da Princesa Peach (idem). O bacana é que o filme não mostra só o duelo entre os dois jogadores retratados, mas explica todo o funcionamento do jogo (que é bem mais complexo do que fugir de barris atirados pelo bicho) e o porquê de tanta gente ser fascinada por esse tipo de coisa. Rapidamente, ainda somos apresentados a outros clássicos, como Qbert e Centipede, que eram algumas das revoluções daquela época em termos de video game.

Na “trama”, ficamos sabendo da história de Steve Wiebe, um professor de física que teve vários fracassos na vida, seja trabalhando em uma companhia aérea ou como jogador amador de beisebol. Buscando uma nova (e talvez última) chance na vida de ter sucesso em alguma coisa, ele começa a jogar Donkey Kong como um passatempo – e descobre que, a partir de probabilidade e desenhos vetorizados, ele é capaz de ser o melhor do mundo.

O outro lado da moeda é Billy Mitchell, uma celebridade no universo dos video games. Ele conquistou o recorde de meia dúzia de títulos na década de 1980 e era o detentor da marca de DK na época das filmagens. Mas ficamos sabendo que ele é também extremamente narcisista, metido e antipático com quem ele acredita que não mereça um bom tratamento. Também conhecemos outros jogadores (a maioria 100% o biotipo e a personalidade do jogadores reclusos e anti-sociais) e até Walter Day, o “juiz oficial” dos torneios que mantém um site sobre os recordes, o Twin Galaxies.

Steve Wiebe e Billy Mitchell, os dois pesos-pesados de Donkey Kong.

O diretor, Seth Gordon, ganhou espaço em séries de TV, dirigindo episódios avulsos de grandes comédias como Community, The Office e Modern Family, além do longa “Quero Matar Meu Chefe”. Em King of Kong, feito antes desses trabalhos, já podemos notar o talento do sujeito para o humor e temas obscuros, porém interessantes. Tem futuro, o rapaz.

Mas o filme perde um pouco da magia documental em mostrar Wiebe como o mocinho passando pela “jornada do herói” e Mitchell como um vilão malandro e sem escrúpulos. Ele tem até “capangas” extremamente chatos que ficam de olho na pontuação do rival e até puxam papo com ele na tentativa de desconcentrá-lo! Pesquisando por aí, vi que não era bem assim: os dois já se encontraram amigavelmente várias vezes. Esse tipo de coisa tira um pouco a credibilidade jornalística, apesar de acrescentar uma carga dramática bem maior: é impossível deixar de torcer pelo professor fracassado.

E você ainda reclama dos gráficos daquele jogo de PS3…

Ainda assim, a edição é incrível, mostrando de maneira épica o desenrolar da história e passando bem como é o clima dos torneios de video game com títulos já obscuros e jogadores que são pais de família e funcionários de empresas. Até o final, que mostra um plot twist de maneira pouco convencional, é capaz de fazer o público vibrar pela maneira como é contado.

Aqui, os video games são levados a sério, como um passatempo bastante válido. Mas Gordon mantém os pés no chão: mostra a família de Wiebe preocupada com a jogatina intensa e não tenta traduzir o jogo como uma metáfora para o ser humano ou algo parecido. King of Kong não é só um documentário sobre video games (embora quem não suporte o tema não passe da primeira meia hora), mas sobre histórias e estilos de vida. Por mais esquisitos e diferentes de nossa realidade que eles possam ser.

O universo dos games é tão sensacional e dinâmico que nenhum dos dois jogadores sobreviveu com o recorde, o que aumenta ainda mais o valor histórico do documentário. Em fevereiro de 2011, cinco anos após a última conquista, o cirurgião plástico Hank Chien ultrapassou Mitchell e Wiebe e tornou-se o atual recordista de Donkey Kong. Fascinante, vai dizer.

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