O primeiro zumbi

Até o final da década de 1960, o zumbi, morto-vivo ou undead só tinha um significado: o resultado de rituais vodu praticados no Caribe, cujos feiticeiros eram capazes de adormecer e reviver pessoas para que elas se tornassem escravos sem vontade própria, perfeitas para trabalharem em fazendas ou engenhos. O cinema, claro, se apropriou dessa criatura fascinante, inicialmente em “Zumbi Branco” (White Zombie, 1932), estrelado por Bela Lugosi.

Mas foi outra concepção desse monstro que caiu nas graças do povo: aquele que se levanta depois de morto, caminha a passos lentos e mancos e só tem um desejo, que é o de perseguir os ainda vivos e deliciar-se com a carne fresca de suas vítimas. Quem bolou essa criatura, que teve como base uma série de personagens da literatura e do cinema, foi George A. Romero, da até agora hexalogia que começou com “A Noite dos Mortos-Vivos” (The Night of the Living Dead, 1968).

E o primeiro deles a gente não esquece.

Seja o monstro pálido e pixelado em Resident Evil, seja o interpretado por Bill Hinzman, que faleceu no último domingo (05) aos 75 anos, vítima das complicações de um câncer. É ele o ator responsável por iniciar o medo (e a adoração) aos mortos-vivos, com o papel do zumbi que surge no mesmo cemitério em que Barbara e seu irmão, Johnny, acabam de visitar – tudo depois das brincadeiras de “They are coming to get you, Barbara” feitas pelo rapaz, que acabam sendo verdade durante o filme.

A atuação não tem absolutamente nenhum destaque, a luta com Johnny é desajeitada e ele até pega uma pedra para quebrar a janela do carro da mocinha, algo considerado “avançado demais” por alguns fãs mais conservadores dos mortos-vivos.

Além disso, não sabemos a origem desse zumbi, quem ele era, como morreu ou o motivo de ter se levantado (embora a notícia de uma missão espacial que deu errado seja levemente introduzida durante o filme). Mas nem por isso deixamos de sentir tanto fascínio por aquele cadáver ambulante, que deu início a um legado que já dura cinco décadas – e parece ter encontrado seu auge em quantidade e popularidade nos dias de hoje.

Mas Hinzman não seria tão adorado apenas por sua importância cinematográfica: ele era muito reconhecido por seu carisma, uma simpatia fora do comum e a presença garantida em eventos e convenções de terror, desde Zombie Walks até mostras de cinema – nem sempre caracterizado como o personagem que o consagrou, mas sem nunca tirar o sorriso do rosto.

O cara poderia ter se tornado um aposentado recluso e arrogante, infeliz por ser conhecido como um coadjuvante de um filme preto-e-branco de baixíssimo orçamento, mas abraçou seu status de celebridade obscura e conquistou um lugar especial no hall do cinema e dos fãs de terror. Fora o primeiro capítulo da série de Romero, ele ainda atuou com o diretor sendo um figurante em “Exército do Extermínio” (The Crazies, 1973) e até se arriscou na direção de dois longas.

Descanse em paz, Bill “Cemetery Zombie” Hinzman! E, por favor, vê se não volta.

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