Doutor Estranho, adaptação mais ainda

Antes de criticar e fazer piadinhas com todos os elementos do filme, preciso que me respondam: olhando por toda a imensa galeria de criações da Marvel, por que alguém escolheria adaptar o Doutor Estranho para as telas? Apesar da aura de mistério e esoterismo em volta do personagem, ele não tem exatamente um carisma entre o público, exige efeitos visuais mais complicados (e caros) e passa longe do apelo popular de um membro dos Vingadores, por exemplo.

Mas isso não impediu Stephen Strange de saltar dos quadrinhos para a televisão, em um filme chato, indeciso e, principalmente, escuro. Não, não é obscuro: apesar de ser difícil de encontrá-lo por aí, o problema é a falta de luz mesmo.

E, antes de começar, eu admito: não conheço o Doutor Estranho, não faço ideia de quais sejam seus poderes, vilões, colegas ou fraquezas. Mas um filme ruim é um filme ruim – e a falta de qualidade de “Dr. Strange” (1978) está acima de qualquer preconceito.

Na história, a feiticeira Morgan Le Fray é ressuscitada por uma força maligna para derrotar o Sacerdote Supremo, um sábio ancião que solta brilhos e faíscas pelas mãos. Como já está velho demais, o bruxo resolve chamar seu pupilo, Stephen Strange, que estava em uma espécie de “latência”, vivendo uma vida comum e sem saber que era um super-herói, apesar dos poderes psíquicos adormecidos. Agora, cabe ao Doutor Estranho derrotar a bruxa e impedir o mal de dominar os poderes mágicos na Terra.

Claro que eu fiz um super resumo: para você ter uma ideia de o quanto é confuso esse roteiro, eu tive dificuldades de compreender a sinopse presente na…Wikipédia! O letreiro em vermelho que antecede o filme também não ajuda: fala, fala, fala e joga uma musica de suspense no fundo, mas não explica absolutamente nada.

Bla bla bla bla bla bla bla. Bla bla bla bla bla. Bla bla.

E tudo bem que é um filme de origem, mas o Doutor passa mais de uma hora apenas como psiquiatra, mostrando seus poderes apenas no combate final – que é longo, mas é único. Os 90 minutos poderiam ser cortados, sei lá, pela metade.

Aliás, cabe comentar: Stephen Strange é um dos piores psiquiatras do mundo: chega atrasado porque estava em um encontro, paquera as enfermeiras, atende pacientes em segundos e tem como santo remédio uma noite no leito do hospital. Já a vilã é fraca, sabe apenas fazer caras más e usar truques de convencimento Jedi, assim como o Sacerdote Supremo.

Vocês não vão aprovar esse filme….e nem contar para o George Lucas que roubamos a ideia dele…

O elenco, para poupar orçamento, é formado basicamente por atores jovens e desconhecidos. O diretor/escritor/produtor Philip DeGuere não tem nada de incrivel no currículo, sendo mais focado em roteiros, como dois episódios de “Além da Imaginação”. Peter Hooter, o Estranho, nem tem uma foto no IMDb – e sua participação menos inútil é em “Orca – A Baleia Assassina”, de 1977. Jessica Walter, a vilã, foi a mãe de “Família Dinossauro” – além de vários outros papéis, mas é o que basta para mim.

Com os coadjuvantes, o currículo começa a melhorar. Clyde Kusatsu, que faz Wong, outro pupilo do sacerdote supremo, tem uma lista de filmes tão grande quanto a de Danny Trejo ou Nicholas Cage. Ele é o Admiral Nakamura de “Jornada nas Estrelas – A Nova Geração” e dublou uma série de desenhos. Já Anne-Marie Martin, a estudante Clea Lake, não fez nada de relevante, mas foi esposa do lendário escritor Michael Crichton (“Jurassic Park”, “Twister”, “Plantão Médico” e outros) por cerca de 20 anos.

A vilã é tão sem sal que eu nem achei uma piadinha para fazer na legenda.

A trilha sonora é bizarra: alta demais e presente durante os longos takes do filme, ela nunca parece se encaixar com a situação. Suspense quando não há suspense (como quando uma televisão exibe “Abbott and Costelo Meet Frankestein”), rock psicodélico em cenas aleatórias e sons distorcidos bem desagradáveis para indicar algum ato de magia, como a possessão de um corpo.

Os diálogos parecem reproduzidos em câmera lenta, com falas espaçadas umas das outras e conversas que duram muito mais do que deveriam. Provavelmente a ideia era passar aquela imagem de sabedoria e intelecto avançado dos magos, mas tudo o que consigo sentir é uma monotonia sem tamanho.

Então foi você que me convenceu a me fazer essa bomba?!

Várias cenas envolvendo magia também são extremamente tediosas, com longas sequências de sonhos e delírios envolvendo Clea Lake, uma jovem estudante que vira um peão da feiticeira. O combate final é lento e não passa a menor emoção, mas uma coisa não dá para negar: os efeitos especiais estavam muito bons para 1978.

Mas o que mais incomoda é mesmo a escuridão das cenas fora das ruas ou do hospital. Sombras exageradas, personagens iluminados só por velas ou fontes de luz fraquinhas e uma dificuldade absurda para saber quem está ou não na cena são alguns dos obstáculos que você encontra pelos 90 minutos de filme. Não é um filme de terror, caramba!

Acredite: tem uma cena acontecendo ali no meio.

O filme seria um piloto para uma série planejada para repetir o sucesso alcançado com “O Incrível Hulk”, que entrava em seu segundo ano de exibição na TV, interpretado por Lou Ferrigno. Quando “Dr. Strange” foi exibido em sessão fechada pela primeira vez, entretanto, os patrocinadores, assustados com o resultado final, pularam fora e deixaram o produto como um daqueles “filmes para TV”, algo bastante comum com super-heróis nessa e nas próximas décadas.

Outra coisa: quando um super-herói é adaptado para fora dos quadrinhos, o mínimo que os fãs esperam é uma aparência similar, certo? É só pegar o uniforme perfeito do Homem-Aranha ou a adaptação do Homem de Ferro para perceber com uma boa roupa automaticamente conquista os fãs. Com a identidade secreta do Doutor está tudo bem, mas o mago ganha uma vestimenta digna dos desfiles carnavalescos mais capengas.

A-la-la-ô-ôôô-ôôô! Mas que calo-ooo-ooor!

No fim das contas, “Dr. Strange” não se decide como um longa de mistério, passa longe do suspense e parece querer fugir de ser algo sobre super-heróis – e não cumpre uma boa missão em nenhum desses gêneros. Uma coisa é certa: apesar de não ser extremamente trash como outras obras já analisadas aqui, estamos diante de mais um filme bastante ruim. Ah, se desse para fazer ele desaparecer…

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