Pobre, negro, latino, criança e Homem-Aranha

Contextualizando: o universo Ultimate da Marvel é uma espécie de “realidade paralela”. Nele, artistas mais jovens tiveram a liberdade criativa e editorial de recriar origens, uniformes e personalidades de heróis e vilões, o que gerou muita reclamação de fãs mais conservadores, mas abriu novos horizontes para personagens que já estavam esgotados no mercado.

O Homem-Aranha não estava em má fase, mas foi um dos que sofreu uma das mudanças mais radicais: de identidade. Na mesma linha de gente como Lanterna Verde e Robin (desculpem a comparação), a roupa do herói passou para outra pessoa.

Nesse caso, Miles Morales, um garoto de 13 anos que mora em um bairro pobre de Nova York. Pelo sobrenome, já dá para adivinhar também que ele é latino. Ah, ele também é negro. Contando com a parte de ser “super”, sempre vista com desconfiança e ódio por parte da população, são cinco minorias em uma só pessoa. E, além de conviver com esses desafios cotidianos, ele tem que combater o crime e passar de ano em Ultimate Spider Man, a HQ atual daquele que é meu super-herói favorito.

Confesso que vi com maus olhos a novidade. Peter Parker é o Homem-Aranha, ponto. Ver uma pessoa tão diferente e com nenhuma ligação com o anterior assumir o manto  (agora vermelho e preto) causa estranhamento. Mas, acreditem, o quadrinho é bem divertido.

Um  dos fatos mais legais é a continuidade: o original existia (e morreu, sabe-se lá o motivo, já que não acompanhava a série antes) e ainda está na memória das pessoas e de vilões. O universo do Aranha, ainda que bem diferente do original, está completo e recebe Miles sem grandes novidades. Alguns vilões foram bem remodelados, como o Escorpião (que virou um gangster mexicano), mas a malvadeza característica de cada um continua lá.

Sim, eu só coloquei essa imagem para você ter que ficar de cabeça para baixo.

As falas em pensamento do Aranha enquanto passeia pelos céus também estão presentes, apesar de mais tímidas e sem o humor mais ácido do original. As piadinhas com os vilões surgem aos poucos, enquanto Miles vai ficando confotável na roupa do herói. E eu não sei se o original já contava com essas coisas, mas agora o herói pode ativar uma camuflagem que é pura apelação e um “golpe venenoso”, um soco que deixa os inimigos paralisados. Mas algumas coisas nunca mudam.

“Homem-Aranha, Homem-Aranha / nunca bate, só apanha”

O roteiro, apesar de ter trechos que podem irritar um pouco (o melhor amigo estereotipado de “gordo nerd”, por exemplo), é bastante coeso e agradável de se acompanhar, seja você um novato na série (afinal, a ideia é mesmo pegar novos leitores) ou já rodado nos quadrinhos e no universo Ultimate – fora referências a vilões, situações e personagens do Homem-Aranha clássico, rola até uma aparição de Nick Fury e alguns dos Vingadores no meio da trama). Até agora, são 10 volumes e uma promessa de um especial para junho em que Parker aparece e parte para a porrada contra seu sucessor, apesar de ser apenas uma ilusão.

E não podia faltar uma figura parental de forte influência: apesar de ter os pais, Miles recebe lições mesmo é do Tio Aaron. Mas as semelhanças acabam por aí: o cara é o Gatuno, um ladrão de primeira – e é a pior pessoa possível para aconselhar o garoto. Ainda assim, foi ele o responsável pela transformação do sobrinho, já que a aranha modificada foi acidentalmente roubada durante um furto do vilão a Norman Osborn. Que diferença, hein?

Uma boa notícia para quem não aguentava mais o mimimi do Tio Ben.

Não conheço a dupla responsável pelo traço, mas ganharam meu respeiro desde já. Os desenhos são muito bem feitos, com cenas de ação visualmente bem contadas e com um estilo que não tenta deixar as personagens femininas ridicularmente sexy – ou em poses absurdas e desconfortáveis que viram piada na internet. Talvez isso tenha a ver com a visão de mundo ainda infantilizada que Miles tem, ou não, mas o que importa é que é um fator positivo.

Apesar de ser uma história totalmente inédita, que quebra padrões clássicos já estabelecidos e contar uma origem, coisa que o Homem-Aranha ganha a cada 5 anos em cinema, TV, jogos ou quadrinhos, o Ultimate Spider Man é um gibi extremamente cativamente e divertido. Com o tempo, é fácil deixar o preconceito de lado (ó!) e crescer junto com o protagonista. Mesmo se você já for um fã bem crescidinho para ler quadrinhos.

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