Paz? Só quando o filme acaba

Filme baseado no Super-Homem e estrelado por Christopher Reeve tem que nascer e/ou acabar com polêmicas. O primeiro foi finalizado mais rápido que o normal por brigas entre Richard Donner e a produtora, o segundo teve duas versões completamente distintas (uma delas é o corte do diretor), o terceiro foi uma torta de climão absurda por causa da inclusão de Richard Pryor e o quarto…ah, o quarto.

“Superman IV – Em Busca da Paz” (1987) passou por várias reescritas de roteiro, cortes no orçamento e crises de preguiça da equipe de produção, que provavelmente queria acabar logo as filmagens. O resultado é um filme mal executado, que não faz sentido e joga toda a reputação do Homem de Aço no lixo — sim, antes de “Superman Returns” (2006).

Agora, vamos lá: um roteiro escrito por três pessoas já é algo de se desconfiar – ainda mais quando uma delas é o próprio Reeve, que decidiu que precisava dar uns pitacos no próprio personagem. Mas não dá para negar: com a abertura e a música de John Williams (que só não arrepia os espectadores mais insensíveis), você logo pensa um “Afinal, o que pode dar errado?”. Ah, meu filho…muita coisa. Muita coisa.

O começo parece despretensioso. Um satélite russo tripulado é atingido por outro e é salvo pelo herói, que também resgata um astronauta que fazia reparos do lado de fora. Ao devolver o rapaz para o módulo, ele dá um conselho do tipo “É melhor ficar do lado de dentro” — em russo. É isso aí. Com trinta segundos de filme, você já sabe que não é para levá-lo a sério.

O roteiro em retalhos e com ideias de várias pessoas diferentes fica claro com o número de subtramas: 1) Clark quer vender a fazenda, e se despedir de vez da antiga vida em Smallville; 2) Guerra Fria e a corrida armamentista; 3) Vingança de Lex Luthor, que cria o Homem-Nuclear; 4) O Planeta Diário é agora um tabloide sensacionalista; 5) Clark e Lois na eterna friendszone e 6) surge outra admiradora do rapaz. Tudo muito superficial e mal desenvolvido, claro.

Salvar o mundo? Só depois do meu pilates.

Mas precisamos de uma sinopse, então vamos lá: é Guerra Fria e o mundo teme os avanços nucleares de Rússia e Estados Unidos. É aí que um jovem envia uma carta para o Super-Homem, pedindo para o herói falar ao mundo e convencer os líderes das nações que tudo aquilo é errado e que todos devem ser amigos — e ele faz isso destruindo todas as armas nucleares da Terra (juro!), colocando mísseis gigantes em uma rede maior ainda no espaço e lançando tudo ao Sol. Não me pergunte se isso não deveria causar alguma alteração maluca no Sistema Solar, mas normal não deve ser.

O impacto do filme foi grande em John Cryer: ele parou de pintar o cabelo e virou pai. Mas não perdeu a cara de idiota.

Enquanto isso, Lex Luthor (e seu sobrinho, ninguém menos que John “Alan do Two and a Half Men” Cryer) roubam um fio de cabelo do Homem de Aço para obter seu DNA, misturam isso com substâncias nucleares e atiram tudo ao Sol, dando origem ao vilão Homem-Nuclear (Mark “Quem?” Pillow), que entra no filme só depois da metade, quando todos já estão cansados de tentar levar alguma coisa a sério.

E Lex está totalmente sem salvação. Mais canastrão e “cientista louco” do que nunca, Gene Hackman parece se divertir, mas não liga nem um pouco se está fazendo um filme de herói ou uma comédia pastelão.

“A luta parece sem emoção demais. E agora? Já sei! Vamos colocar tudo em câmera lenta!”

Já sua criação é praticamente um Ivan Drago do Homem de Aço, exceto pelo status cult que o boxeador recebeu com o tempo: o Homem-Nuclear só rosna e é fisicamente mais bem definido que o herói. As comparações com Rocky IV não acabam por aí: o excesso de cores e referências aos EUA cansam, mas não fazem rir como no filme de Stallone.

E que ideia é essa de dar poderes piores do que jogar o logo de papel celofane do segundo filme? Aqui, o Super-Homem tem um “raio de reconstituição”, que ele usa para reformar a Muralha da China durante a luta contra o vilão, e um beijo capaz de provocar amnésia. É isso aí: quando ele revela a identidade secreta para Lois, o rapaz sai com a moça num voo e, após um selinho, a jornalista esquece tudo o que aconteceu nos últimos segundos até ir visitar o colega. Clark ainda exerce uma força superior sobre outras pessoas, já que voa com uma coadjuvante pelo espaço sem que a humana sinta qualquer diferença no ar (até os cabelos dela balançam durante o passeio!).

“Aí o Lex Luthor me disse que…Lacy, cê tá bem? Lacy? LACY?!”

Os efeitos especiais nunca foram o forte da franquia e, como esse filme mal se esforça em fazer cenas de ação, nem tem muito o que falar aqui: a luta na Lua tem cabos perceptíveis nos atores e as cenas de voo continuam com o uso do pior chroma key possível.

Em resumo, Superman IV – Em Busca da Paz é uma bomba de proporções inimagináveis, daquelas que fazem o público lamentar pela Guerra Fria ter acabado bem e possibilitado a execução de um filme tão fora de série. Ok, talvez nem tanto. Mas que é ruim, isso é.

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Uma resposta to “Paz? Só quando o filme acaba”

  1. Olívia Baldissera Says:

    Mas o Christopher Reeve é lindo u.u

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