A odisseia espacial do Astronauta

Na música “Space Oddity”, gravada em 1969 por um David Bowie ainda desconhecido e de cabelo ainda mais engraçado que os penteados futuros, o músico fala sobre Major Tom, um astronauta que sai da Terra em uma missão espacial que promove maravilhas visuais ao rapaz, mas que dá errado. Completamente sozinho no espaço – afinal, o “ground control”,  a voz que vem da ponte de comando, está a uma distância física inimaginável – e presenciando o final da própria vida graças a um momento de distração na nave, o personagem envia uma última e desesperada mensagem de amor à esposa antes de se perder na imensidão estelar.

Não sei se o publicitário e quadrinista Danilo Beyruth conhece a música ou usou elementos da composição de Bowie, mas é quase o mesmo sentimento (e cenário) que encontramos em “Astronauta – Magnetar”, o primeiro volume da série Graphic MSP, na qual artistas convidados criam graphic novels de cerca de 70 páginas com uma releitura criativa dos personagens da Maurício de Sousa Produções – sim, Mônica e companhia.


A capa já prepara você para o que está por vir.

Ao infinito e além

Na trama, o sempre simpático Astronauta (que se chama mesmo Astronauta, coisa que só descobri aqui!) vai estudar um magnetar, um corpo celeste formado após uma estrela de tamanho ainda maior que nosso Sol explodir e “empurrar” as cargas positivas e negativas umas contra as outras, formando uma estrela de nêutrons. É aí que um problema faz com que o rapaz fique “ilhado” na nave e repense toda a sua profissão e existência, tudo enquanto procura uma maneira de sair do local.


Aposto que você achou que nunca veria ele fora da roupa de ovo.

Apesar de parecer muito distante da criança que é retratada nos quadrinhos clássicos de Maurício de Sousa, o Astronauta é competente e tem as mesmas saudades da Ritinha, que ele deixou na Terra para seguir com as missões constantes pela galáxia, além de amigos e parentes, incluindo o avô, que tem um papel importante na formação do rapaz.

Ou seja, a essência do personagem está lá, mesmo que apenas a forma do traje e a existência de um computador de bordo sejam elementos reconhecíveis. E o traço merece elogios: o Astronauta crescido é uma grande composição – mas em algumas páginas é covardia compará-lo com os cenários espaciais criados por Beyruth. As cores de Cris Peter não são menos brilhantes, aumentando ainda mais a angústia do leitor. E os méritos vão também para a Panini e a MSP, já que o trabalho de impressão ficou impecável.

É solitário no espaço

A história pode ser perfeitamente lida por um público mais jovem, mas que atinge em cheio de jovens adultos para cima, já que discute solidão, arrependimento e aquele momento difícil em que você precisa seguir por um caminho e deixar a outra opção para trás, sempre se perguntando se não seria melhor ter tomado o rumo oposto.

Acredite: você não vai sentir saudades do visual clássico.

E, se é para falar de algum defeito e não deixar essa análise unânime, a única ressalva é mais um pedido egoísta: a narrativa, que deixa a impressão de que o artista entende mesmo de criação de roteiros, é finalizada de maneira tão intensa que  faz com que você queira uma série inteira de aventuras do Astronauta, mesmo sabendo que isso não deve ser possível em um futuro próximo. Mas o projeto da MSP continua e, se o nível permanecer o mesmo, outros grandes personagens da Turma da Mônica ainda vão nos entreter da mesma maneira.

Assim como “Space Oddity” é uma das minhas músicas favoritas da década de 1960, “Astronauta – Magnetar” traça o mesmo caminho para ser uma daquelas histórias em quadrinhos que você vai reler e reler muito e não esquecer tão cedo – e, nesse caso, é ainda mais fácil: não precisa mais do que um céu estrelado.

Space Oddity: o clipe original é um pouco mais visual e altamente trash, por isso vale a conferida. Mas minha versão favorita é mesmo a acústica, que saiu em 1972. Que violão matador.

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