Schwarzenegger e os 91 minutos de Hércules…em Nova York

Sylvester Stallone começou a carreira de ator aos 24 anos, fazendo um curta-metragem pornográfico chamado “The Party at Kitty and Stud’s”, relançado quando o ator ficou famoso como “O Garanhão Italiano”. O primeiro papel de Bruce Willis foi o de um mero figurante que saía de uma lanchonete enquanto o protagonista, ninguém  menos que Frank Sinatra, entrava no mesmo local. Clint Eastwood não deu tiro nenhum em seus primeiros longas: era um assistente de laboratório em bombas como “A Vingança da Criatura” e “Tarantula”. Hollywood é o exemplo perfeito de que não se senta na janela logo depois de embarcar no trem: é preciso começar do zero, com papéis menos relevante e em longa-metragens muitas vezes de qualidade duvidosa. Mas o caso de Arnold Schwarzenegger é ainda mais especial.

Em 1969, o austríaco já era detentor do título de Mr. Universo (que só perdia em importância para o Mr. Olympia, que ele venceria sete vezes logo depois) e estava em uma de suas melhores formas como fisiculturista, ganhando cada vez mais fama no cenário mundial do esporte e ajudando a promover sua prática. E não pense que ele era só uma montanha de músculos: lendo a autobiografia do astro, é possível perceber que ele sempre foi um cara esperto, ligado em negócios, empreendedor e com sede por conhecimento. Mas o cinema ainda era um campo misterioso e inexplorado para ele, que nunca tivera aulas de atuação na vida (sim, ele teve depois, antes que você pergunte). Ainda assim, ele não pensou duas vezes ao aceitar o papel do brutamontes mitológico que dá nome ao filme “Hércules em Nova York”.

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Sem o desespero de Stallone ou a sorte de contracenar com astros logo de cara, como Willis, Arnold pegou o papel não porque esse poderia ser o início de uma carreira promissora, mas também porque, em sua infância em um vilarejo na Áustria, ele passava horas encarando o pôster de uma produção antiga de Hércules estrelada por Reg Park, ator e fisiculturista que foi um dos maiores ídolos do rapaz. Agora, ele também seria Hércules. Um Hércules ridículo, abobalhado e que fala com forte e quase incompreensível sotaque austríaco, mas um Hércules.

O filme se passa na Nova York atual, mas começa no Olimpo: cansado da vida pacata entre as divindades, o herói interpretado por Arnold desafia o pai e é enviado para a Terra para “aprender uma lição”. Aí vem a primeira das milhares de besteiras do roteiro: que tipo de castigo é esse, já que viajar para lá era exatamente o que o rapaz queria?

Buh!

Buh!

Chegando na Terra, Hércules é resgatado do oceano por marinheiros, tem uma cena de luta horrivelmente filmada e conhece alguns aliados: Pretzie, um trambiqueiro baixinho que só quer se aproveitar do novo amigo; Helen, o par romântico do semideus; e o pai da moça, um historiador. Nenhuma das relações é bem construída: apesar de ingênuo e bondoso, Hércules devia perceber as más intenções de Pretzie. E como entender quando, depois de xingar o brutamontes de vários nomes em uma cena porque o rapaz bateu no atual namorado da jovem, a mocinha aparece em um encontro cheio de abraços e declarações de amor com o personagem de Arnold no Central Park logo no corte seguinte?

Mas é durante esse momento de amor que o filme tem uma de suas cenas mais incríveis e nonsense. O passeio de carruagem de Hércules e Helen é interrompido pela presença de um (homem vestido em uma roupa de) urso feroz que escapou do zoológico. Sorte que o herói estava por lá: a luta é mal filmada, acaba rápido e é de uma vergonha alheia inacreditável, mas vale a pena ser vista, já que não é todo dia que você ve um Exterminador do Futuro e ex-governador da Califórnia espancando um bicho desses, não é mesmo?

E não dá para não mencionar a música grega que acompanha a cena – aliás, não só essa, mas praticamente todos os momentos do filme, dos créditos às piadas, passando pelas lutas e cenas de transição com imagens de cenários. Ela irrita e é extremamente repetitiva, mas fica na cabeça.

E vamos lembrar das aulas de História: na mitologia grega, Hércules é um semideus, fruto de uma das várias “escapadas” de Zeus com humanas e conhecido por sua força descomunal. Mas ele também é dotado de inteligência, sendo reconhecido por realizar a maioria d’Os Doze Trabalhos com trapaças, enganações e engenhosidades. Sabendo disso, fica difícil entender o motivo de terem transformado o personagem em um completo idiota no filme. Mais da metade das falas de Arnold são repetições de “Mas eu sou Hércules, filho de Zeus!” e “Ninguém desafia Hércules!”, além de outras frases sem criatividade, mostrando que o sujeito não é muito bom em formular sentenças mais longas.

Como conquistar a mocinha do filme em uma pose.

Como conquistar a mocinha do filme em uma pose.

Para piorar a composição do personagem, aqui temos Arnold Schwarzenegger em seu estado mais “cru” de atuação: o sotaque austríaco mais carregado que nunca (ele até foi dublado em algumas cópias e no trailer no final da postagem), uma falta de expressão inacreditável e movimentos de corpo bastante travados – exceto nas cenas em que ele é obrigado a mostrar os músculos, já que aquela era a sua área. Por ter uma cena de levantamento de peso, uma subtrama envolvendo luta-livre e algumas tomadas de pancadaria, o longa vale também como curiosidade para quem quer ver um pouco do físico do ator naquele ano.

Assim como o primeiro filme de vários astros, “Hércules em Nova York” acabou se perdendo no limbo de Hollywood: a produtora faliu antes de lançar o longa-metragem, cancelando a estreia nos cinemas. Felizmente, as cópias sobreviveram ao tempo e a produção ganhou o status de cult na internet.

Outro fato curioso está nos créditos: Schwarzza aparece como “Arnold Strong”. Isso aconteceu por três motivos: “Schwarzenegger” foi considerado pouco comercial pela produtora, pois ninguém conseguiria pronunciar ou colocar o sobrenome no cartaz; o pseudônimo criava um contraste interessante com o coprotagonista franzino Arnold Stang e…bom, ele era realmente forte.

Antes das motos do Exterminador do Futuro e o cabelão de Conan, o Bárbaro.

Antes das motos do Exterminador do Futuro e o cabelão de Conan, o Bárbaro.

Para não deixar a crítica pesada demais, vale ao menos um elogio à caracterização de alguns dos deuses componentes do Olimpo. Juno/Hera, Plutão/Hades e Mercúrio/Hermes estão bem caracterizados tanto fisicamente quanto em personalidade: a primeira é uma mulher impiedosa com os casos e bastardos do marido, o deus do submundo é um trapaceiro maligno de aparência ainda mais malandra e Mercúrio é um jovem inocente que gosta de ajudar os outros. E é nesse núcleo, inclusive, que vemos a única piadinha (no diminutivo, porque nem é lá grandes coisas) que funciona em todo o filme – e ela envolve os últimos segundos da projeção, em uma curta cena com Zeus.

Em resumo, “Hércules em Nova York” é um filme terrível, que não consegue ser uma boa comédia (sim, teoricamente era para ser isso!) nem uma aventura decente, por causa das cenas de luta mal filmadas e do roteiro raso e besta. Ainda assim, não dá para não ficar curioso sobre como é a estreia nos cinemas de Arnold Schwarzenegger, que seria um dos maiores astros dessa mesma área décadas depois. O problema é que assistir a essa bomba é um trabalhão (pegaram? hein? hein?), exigindo muito mais coragem do espectador do que o ser mitológico em suas aventuras no Monte Olimpo.

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Uma resposta to “Schwarzenegger e os 91 minutos de Hércules…em Nova York”

  1. Olívia Baldissera Says:

    Hmmmmm… Querer ver o físico do Arnold naquela época… suspeito :B

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