Três rounds contra Uwe Boll

Se existe um homem em especial que não aceita críticas sobre o seu trabalho, esse alguém é Uwe Boll. Sete anos atrás, cansado de comentários pesados de internautas anônimos ou não que dissecavam negativamente seus filmes e faziam abaixo-assinados para que ele se aposentasse, o diretor resolveu satisfazer o desejo de quem sempre quis socá-lo de verdade: abriu inscrições para críticos desafiantes dispostos a lutarem boxe contra ele, na oportunidade perfeita de tirar sangue do rosto do cineasta. Cinco pessoas resolveram entrar na brincadeira. As lutas aconteceram, o nome do diretor ganhou tempo extra na mídia e… seus filmes continuaram uma porcaria, não que alguém esperasse algo diferente.

Este é Raging Boll (um trocadilho de gênio com Raging Bull, o título original de “Touro Indomável”), um dos episódios pouco conhecidos mais interessantes, bizarros e divertidos do cinema contemporâneo.

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Uwe Boll é alemão, já assoprou velinhas 47 vezes e é diretor, produtor e roteirista. É dono de uma produtora própria, a Boll KG, que se aproveita de leis de incentivo à cultura em seu país natal para conseguir um financiamento mínimo necessário para seus longa-metragem, mesmo que todos acabem com uma falta de qualidade nada duvidosa.

Há alguns anos, seu currículo contava apenas com adaptações de video-games de sucesso. “Bloodrayne”, “House of the Dead”, “Alone in the Dark”, “Dungeon Siege” e “Far Cry” foram seus alvos – e atores de qualidade, como Ben Kingsley, Ray Liotta, Burt Reynolds e Jason Statham trabalharam com ele, provavelmente para pagar alguns aluguéis atrasados. Depois das tentativas frustradas, ele começou a filmar roteiros originais, incluindo até um filme sobre o holocausto, sem conseguir apagar a imagem ruim.

Apesar da falta de talento atrás das câmeras, ele é esperto e sabe fazer marketing como poucos. Em um comunicado público, desafiou de verdade para uma luta de boxe qualquer pessoa que já tenha publicado ao menos uma linha criticando seus filmes em qualquer meio de comunicação. Quentin Tarantino, reconhecidamente maluco, e o roteirista Roger Avary, preso de 2009 a 2010 por dirigir embriagado e causar um acidente que matou um colega italiano, também receberam convites, mas recusaram – o que possivelmente causou alívio em Uwe Boll.

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Mas cinco pessoas resolveram aceitar o desafio e subiram ao ringue contra o diretor. Enxergando a oportunidade, além de transformar a pancadaria em um verdadeiro espetáculo, Boll conseguiu o patrocínio de um site de cassinos online, o GoldenPalace.com, e marcou as lutas para o final daquele ano de 2006. cerca de 600 pessoas assistiram às lutas no Plaza of Nations, em Vancouver, Canadá.

Ah, outro pequeno detalhe que pode ser um pouquinho relevante daqui para frente: ele já foi boxeador amador e ainda treina. Portanto, como já era de se esperar, nenhuma das lutas foi um “Ali versus Foreman” – e todos os críticos, quase todos sedentários e sem a menor noção de boxe exceto assistir a sessões de “Rocky – Um Lutador”, foram vergonhosamente surrados.

Round 1: Boll x Palencia

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Carlos Palencia. Vai dizer que esse não parece um nome de boxeador latino de sucesso? Mas o espanhol é webmaster do CineCutre e responsável por um vídeo que não existe mais na internet chamado “Kill Boll”. A luta foi a única realizada fora de Vancouver, aproveitando que Boll foi ao país europeu receber um prêmio cinematográfico por “Bloodrayne” em um festival (sério, Espanha?). O apresentador tinha uma máscara de luchador, Palencia lutou de forma patética e foi derrotado quando os árbitros, por pena, decidiram encerrar a luta no terceiro round. Boll um a zero.

Round 2: Boll x Kyanka

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No canto direito, com calções estrelados e nas cores das bandeira dos EUA, assim como Apollo Creed e, posteriormente, Rocky Balboa….. Richard “Lowtax” Kyanka! Também nada atlético, o rapaz é dono do site Something Awful e conquistou o direito da luta ao limar o diretor em uma crítica de “Alone in the Dark”. A disputa é a mais desigual possível: o sujeito mal consegue ficar de pé e recebe vários golpes seguidos, com força e sem dó do diretor. Ele também foi o mais polêmico dos desafiantes, disparando acusações sobre o evento. Segundo Kyanka, Boll teria dito aos críticos que tudo não passava de “relações públicas”, que os golpes seriam encenados e que todos receberiam treinamento básico no boxe – tudo mentira, como podemos ver pelo vídeo acima. Nocaute técnico no primeiro round. Dois a zero para Boll.

Round 3: Boll x Sneider

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Jeff Sneider nunca havia escrito sobre os filmes ruins do alemão, mas foi escolhido por ser  repórter do Ain’t It Cool, um site de entretenimento de visibilidade mundial que adorava bater virtualmente em Boll. Ele apanhou de verdade até o segundo round, quando seu técnico jogou a toalha no ringue, encerrando a luta por nocaute técnico. Jeff disse ter vomitado e precisado de oxigênio após a luta – e também criticou Boll por não pegar leve, mesmo após dizer que o evento era uma jogada de marketing. Boll tem três, críticos não têm nada.

(sem vídeo)

Round 4: Boll x Alexander

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Chris Alexander tem motivos para criticar o alemão: ele é um jornalista fã de carteirinha do gênero de terror, o mais explorado por Boll. Radialista e crítico da revista Rue Morgue, ele subiu no ringue de Vancouver com uma fantasia bizarríssima (mas lutou sem ela, o que foi uma pena) para ser surrado por seu maior algoz. Ao contrário dos demais, Alexander ganha créditos por ao menos tentar acertar o rosto de Boll. Posteriormente, ele avisou que cada soco foi para um dos filmes ruins que o diretor comandou. Outra tática interessante foi levar sangue falso para a luta, cuspindo um pouco do líquido após receber uma pancada de Boll – tudo para assustar o adversário e tentar fazer com que ele recue um pouco. Boa tentativa, mas não adiantou nada. Uwe Boll quatro, críticos zero.

Round 5: Boll x Minter

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Nelson Chance Minter lutava boxe há um ano quando foi desafiado pelo diretor. Ele nunca falou mal do sujeito e nem conhecia toda a desastrosa filmografia de Boll, mas se voluntariou para a luta. Ah, outro detalhe importante: Minter era menor de idade (tinha apenas 17 anos) e, caso apanhasse muito, o patrocinador sairia com a imagem manchada, o que levou o GoldenPalace.com a tentar fazer com que o rapaz desistisse da ideia. Ele negou, acreditando ter chances de vitória, mas o abismo na idade fez toda a diferença. Mesmo com o apoio da mãe, que gritou ordens durante todo o combate, o garoto não era nenhum prodígio do boxe e não resistiu depois de um soco na região abdominal, com menos de três minutos de luta. Apesar da surra, ele foi o que mais se deu bem por conta do evento: ganhou pontas em três filmes do diretor (ok, talvez não tão bem assim) e abriu a própria empresa de produções cinematográficas. Fim das cinco disputas e Uwe Boll vence, invicto.

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Não que os críticos sejam adversários de grande porte, mas Boll realmente sabia o que estava fazendo. Ele dava golpes fracos para abrir a guarda dos oponentes e desferia alguns socos potentes, mostrando a superioridade absurda do alemão no boxe. Há quem critique uma suposta “covardia” do diretor, mas todos que subiram ao ringue o fizeram por vontade própria, certo?

Um documentário chamado “Raging Boll” foi lançado em 2010 em alguns festivais, mas nunca chegou à internet. Ele mostra na íntegra não só o desafio contra os críticos, mas também um pouco da vida e das opiniões de um dos diretores mais odiados do mundo. Só não ouse dizer isso na frente dele – vai que ele te desafia para uma luta de boxe?

(Não faria esse post sem as matérias da Wired, Kotaku, Send2Press e CBS News)

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