“O Mestre dos Desejos”, um guia de sobrevivência contra gênios

Graças a algumas obras para cinema e televisão, a figura do gênio virou um personagem carismático, bondoso e até de alívio cômico. Em “Aladdin”, quem sai da lâmpada é um sujeito azul, engraçado, sempre com um sorrisão no rosto e a paciência para salvar o herói de todos os perigos. Em “Jeannie é um Gênio”, é uma bela moça que cumpre desejos em um passe de mágica e sempre volta para uma aconchegante sala dentro de sua garrafa. Mas o personagem tem uma origem bem mais antiga e obscura, quase totalmente desvirtuada nessas produções.

Na cultura árabe, os seres capazes de realizar desejos conhecidos como djinns (olha a pronúncia como é parecida com o termo em inglês, por exemplo, que é ‘genie’) foram forjados pelo fogo depois dos anjos e antes dos seres humanos. Enciumados pela atenção do Criador aos homens, foram banidos da Terra – e nessa clausura adquiriram um desgosto profundo por Ele e por todas as suas obras. Se você notou alguma semelhança com a fé cristã, já deve ter percebido que o próprio Lúcifer pode ser classificado como um djinn. Por serem dotados de livre arbítrio, eles podem fazer tanto o bem quanto o mal, este sendo normalmente o mais escolhido.

Nem todo gênio é bacana (e azul) como esse aí.

Nem todo gênio é bacana (e azul) como esse aí.

Em “O Mestre dos Desejos” (“Wishmaster”, 1997), conhecemos um desses djinns cheios de ódio no coração. Ele quase dominou uma cidade persa, mas acabou aprisionado por um mago em uma gema vermelha. Libertado acidentalmente nos dias atuais por uma cientista, a criatura precisa coletar várias almas para retomar o poder anterior – e, para fazer isso, é só barganhar a alma de um humano por um desejo. Por fim, com várias almas reunidas, ele deve conceder três desejos ao responsável pela libertação, o que fará com que uma legião de djinns aprisionados tome conta da Terra.

Visualmente impressionante, o filme é uma mescla interessante entre cenas de sangue, mutilação e mortes computadorizadas (que, por incrível que pareça, não são tão ruins aqui) e feitas manualmente. Vale destacar, portanto, o trabalho do departamento de maquiagem e efeitos visuais, que contou com profissionais como Greg Nicotero, veterano que agora cria zumbis para a série “The Walking Dead”, e o próprio diretor, Robert Kutzman (que acumula mais uma função e é uma das vítimas do djinn, já nos últimos minutos de projeção).

Tudo bem, Disney, a gente entende: este djinn só traria pesadelos.

Tudo bem, Disney, a gente entende: este djinn só traria pesadelos.

Longe de ser um serial killer que age por vingança ou um zumbi que mata sem pensar, o djinn tem uma proposta bem clara em mente: cumprir a tal profecia de reunir um número necessário de almas e fazer com que a pessoa que o libertou tenha os três desejos concedidos. O único problema é que, nesses casos, o destino sempre cai nas mãos de uma mocinha bondosa e de valores, que não se deixa levar pelas propostas aparentemente irrecusáveis do vilão. Neste caso, Alexandra Amberson, interpretada pela desconhecida Tammy Lauren.

Mas, por ser uma criatura diabólica, o djinn de “O Mestre dos Desejos” é um indivíduo manipulador, com forte persuasão e a capacidade de sempre levar vantagem nos acordos, quase sempre por causa do descuido da vítima na hora de falar o desejo, que acaba interpretado literalmente. Um bom exemplo é uma morte no segundo filme: um presidiário deseja ao homem que “daria tudo para passar pelas grades” do local – e o resultado é o sujeito sendo espremido à força pelas barras de ferro até chegar do outro lado, dando um banho de sangue e vísceras nos colegas.

Outro tópico curioso sobre o personagem é que o djinn é um ser de poderes praticamente ilimitados, mas que só pode agir de acordo com o desejo de outra pessoa – e isso é mostrado de forma bastante prática na cena em que um guarda interpretado pelo ator e dublê Kane “Jason Voorhees” Hodder deseja que o ser simplesmente… vá embora. Como a criatura precisa obedecer, ele dá a volta e começa a sair do local, mesmo contra a vontade, mostrando uma fraqueza curiosa do demônio.

Divoff é seu olhar "você vai fazer o que eu estou pensando, não vai?".

Divoff é seu olhar “você vai fazer o que eu estou pensando, não vai?”.

E é preciso elogiar o ator Andrew Divoff, que atua muito bem tanto na forma monstruosa quanto no disfarce humano do vilão, chamado de Nathaniel Demarest. Agora conhecido também como Mikhail, o russo maluco e de tapa-olho em Lost, Divoff não chega a receber a fama de um Robert Englund (o Freddy Kruger), mas foi eternizado na história do gênero e é considerado o único djinn que realmente fez um bom trabalho.

O resto do elenco principal não é formado por grandes nomes – ou, sendo mais sincero, por atores bem meia-boca. Mas vários dos coadjuvantes são figuras conhecidas em obras anteriores, transformando o filme em uma grande celebração do gênero: Robert Englund é um colecionador milionário, Kane Hodder é um guarda e Tony “Candyman” Todd é um segurança. Alguns segundos também são reservados a gente do naipe de Ted Raimi, Joseph Pilato, Reggie Bannister e Angus Scrimm.

Os confrontos finais contra a criatura não são tão incríveis, mas são boas jogadas de roteiro – o desfecho do primeiro envolve até uma “viagem no tempo”. E temos que parabenizar as protagonistas: instigadas pela aparição do djinn, elas não se acomodam e correm atrás de livros e especialistas para saber mais sobre a lenda e pesquisar a fundo como derrotar o vilão e o que fez ele aparecer no mundo real em busca de altas confusões.

“O Mestre dos Desejos” foi recebido com críticas bastante negativas, mas resultou em lucro e até gerou uma franquia. Já lançado direto para vídeo, o segundo filme conta com o retorno de Divoff e algumas boas sacadas (que lugar melhor para fazer barganhas e coletar almas do que um cassino ou uma prisão?), mas já mostrava o desgaste da fórmula. Já sem o astro e com uma produção bem caseira (para não dizer ruim e barata), é possível perceber a falta de qualidade do terceiro e quarto filmes só pelos trailers risíveis.

Lançado em uma década não muito criativa para produções originais do gênero (exceto pela série “Pânico”, que nasceria logo em seguida), “O Mestre dos Desejos” é uma ótima sugestão para quem busca um filme de terror que não usa cortes rápidos e recursos sonoros para fazer você pular da cadeira, mas faz uso de um personagem interessante para criar uma história original, provocativa e levemente assustadora – e que ainda deixa uma mensagem muito importante de que, se algum dia você esfregar um objeto e dele sair um gênio, é preciso ter muito cuidado com o que deseja. Sim, mesmo se ele for o assistente gente boa e piadista do Aladdin.

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