“A Toca”: a primeira aposta da Netflix no Brasil é uma piada

Sou um consumidor ávido do Netflix. Assinei o serviço logo quando chegou ao Brasil. Mal liguei para os pontos negativos (a falta de lançamentos  é irrelevante, já que a proposta não é só essa, e o excesso de conteúdos só dublados foi rapidamente resolvido) e comecei a curtir cada vez mais o conteúdo do serviço de streaming, fácil um dos melhores e mais baratos investimentos mensais que já fiz.

Em 2013, passei a conhecer também os conteúdos originais (na verdade, a melhor palavra é “exclusivos”, já que a produção não fica por conta da própria empresa) e o resultado foi o melhor possível – “Lillyhammer” é sensacional, “House of Cards” é inteligente, achei “Hemlock Grove” instigante e Orange is the New Black não é para mim, mas admito que tem qualidade. Aí veio “A Toca”.

“A Toca” é uma produção de humor do Parafernalha, uma empresa de internet que foca em vídeos produzidos para o YouTube. O canal é o terceiro brasileiro com o maior número de inscritos (mais de 3,3 milhões) e o 12º com mais visualizações (cerca de 204,92 milhões), além de ter como chefe a já celebridade Felipe Neto, o desbocado pioneiro da onda de vlogs na internet nacional.

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Na série, que começa com três episódios de pouco menos de trinta minutos, a ideia é mostrar, de maneira ficcional, a rotina da redação e do estúdio do Parafernalha, no escritório chamado de A Toca, que conta com roteiristas, editores e atores. No meio dessas cenas, algumas das esquetes originais do canal são mostradas para diversificar o ritmo dos episódios.

Parece bacana, não parece? Pois, em resumo, o resultado é o pior possível.

a toca netflix

]As tais esquetes fazem com que as cenas de escritório sejam assistíveis. Quando os roteiros não são óbvios, parece que falta uma piada. Você fica lá, esperando o ápice da cena para rir, mas esse momento não chega.

Não me entra na cabeça que um grupo que aposta em “novas mídias”, como Netflix e YouTube, use piadas como “O Iraque é um estouro!” ou um branco que assalta negros e é tratado como vítima por policiais. Isso funcionava décadas atrás com Casseta & Planeta – hoje, é motivo de piada por estar em, sei lá, um Zorra Total.

a toca parafernalha

E sabe o Fábio Porchat, do canal rival Porta dos Fundos? Você consegue imaginar ele representando mais da metade dos papéis de “A Toca”, já que quase todos os atores têm o mesmo estilo peculiar de tom de voz, atuação, posição corporal, tudo. Isso sem contar o elenco que segura o riso durante as falas – algo que pode ser engraçado em “Os Trapalhões”, “Sai de Baixo” ou “Hermes & Renato”, mas aqui só dá uma pontada de pena.

O próprio Felipe Neto incorpora um pouco o ator, mas algumas das caras dele, como a expressão sarcástica ao olhar para a câmera e o jeito malandro de tratar os funcionários, lembram mais uma tentativa de imitação do personagem Jim (John Krasinski), da versão norte-americana de “The Office”, um dos meus seriados favoritos. Felipe Neto disse a série foi mesmo uma das inspirações, mas isso não significa absolutamente nada – é o mesmo que comparar “Tubarão” com “Sharknado”.

felipe neto parafernalha

Do resto do elenco de apoio, Cezar Maracujá, Osiris Larkin e Otávio Ugá até ganham a nossa simpatia por conta das cenas e escritório, mas ela logo se perde quando eles aparecem interpretando nas esquetes. O resto é esquecível – exceto a voz de Guilherme Briggs, que surge em alguns raros momentos de brilho no episódio piloto.

O Netflix não cometeu exatamente um erro em apostar no Parafernalha: a empresa é uma das mais populares do YouTube no Brasil, e o nome realmente pode atrair um novo público assinante. Quem sabe, se a estratégia foi realizar parcerias com mais gente popular daqui, trabalhos de qualidade saiam no futuro? Só de eles estarem olhando para o país já é uma grande coisa, e esse pode ser o pontapé inicial, mesmo que torto, para algo de sucesso.

Mas quem não é fã do trabalho do grupo liderado por Felipe Neto, e eu me descobri um desses, vai encontrar no seriado uma opção de entretenimento muito pior que as novelas mexicanas, os filmes de terror B e os longas de ação meia-boca que são tão criticados no catálogo do serviço. “A Toca” é de dar risada – no mau sentido.

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4 Respostas to ““A Toca”: a primeira aposta da Netflix no Brasil é uma piada”

  1. Bruna Lanzillotta Says:

    Era de se esperar, né? Os vídeos do Felipe Neto se resumem a ele criticando alguma coisa com 9 palavrões a cada 10 palavras. Dá pra contar nos dedos os vídeos realmente engraçados do canal também.

  2. Derik Evangelista Says:

    Já esperava o pior. Me poupou o desgosto de assistir.

  3. Nilton Kleina Says:

    Eu tava pensando assim também, mas o negócio me surpreendeu negativamente ainda mais!

  4. Flavio Says:

    É sua opinião né cara.. Cada um escreve e posta oque quer! Tem muitos outros canais no youtube? Pq não apostaram no canal porta dos fundos do seu amiguinho fabio q é muito mais rodado e famoso q o Felipe?

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