“Serial” vai fazer você ouvir um podcast em inglês. Juro.

Você escuta algum podcast? Se sim, é bem provável que ele seja o Nerdcast, o Rapaduracast, o 99 Vidas ou outro no estilo papo de boteco, o “roda de amigos falando sobre um tema em comum” – a não ser que seja o Café Brasil, grande (e ótima) exceção. Se não, deve imaginar que esse tipo de formato não é interessante, justamente por conta do conteúdo “nerd demais”, ou por não gostar de rádio em si, o que já é um problema muito maior.

Eu me encaixo na primeira opção: sou ouvinte assíduo de pelo menos três ou quatro podcasts, mas sentia a vontade de conhecer algo diferente – sempre fui apaixonado por rádio, escuto música, noticiários e partidas de futebol por esse formato constantemente, e notei que os meus podcasts estavam estagnados em forma e quase em conteúdo.

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Aí veio Serial. Por mais de uma indicação, cedi e fui atrás de uma tal história em inglês contada em forma de podcast que narrava uma investigação criminal aparentemente fechada e com mais de uma década de idade. Tudo isso tinha, em teoria, chances de ser monótono e difícil compreensão. Provou-se o contrário: virou meu novo vício, consumiu parte do meu tempo e dos meus neurônios e, como uma droga de efeitos fascinantes, me fez sentir na necessidade de indicá-lo para o maior número possível de pessoas.

Serial é um podcast dividido em 10 episódios lançados em 2014 e narrados por Sarah Koenig, uma jornalista norte-americana que produz desde 2004 um programa de rádio chamado This American Life. Ele conta histórias de vida norte-americanas de uma ou várias pessoas – de celebridades e criminosos a completos desconhecidos com trajetórias incríveis. Serial é um projeto paralelo do programa que, com todos os méritos, se tornou mais famoso que o original.

Prazer, Adnan. (Reprodução/Daily Life)

Este é Adnan. Ele foi condenado à prisão perpétua (mais trinta anos). (Reprodução/Daily Life)

A história contada pelo podcast é a do assassinato da estudante Hae Min Lee, de 18 anos. Em janeiro de 1999, na cidade norte-americana de Baltimore, ela desapareceu e teve o corpo encoberto semanas depois. O ex-namorado da jovem, Adnan Syed, foi preso e condenado à prisão perpétua após julgamento. A testemunha de um amigo de Adnan, Jay, foi crucial para o veredito: ele afirma que Adnan o chamou para mostrar o corpo de Hae e pedir ajuda para enterrá-lo. Até aí, tudo bem – se não fosse pelo fato de que Adnan nega que isso aconteceu e que, analisando friamente, a história “oficial” realmente possui algumas brechas e não faz muito sentido.

E agora? Será que o filho de paquistaneses foi condenado injustamente, baseado em mentiras de um suposto amigo? Ou será que Adnan tem traços de psicopatia e é capaz de enganar Koenig e o espectador com lábia e simpatia? A história é extremamente envolvente: os personagens são desenhados aos poucos e, rapidamente, nos apegamos a uns e torcemos contra outros. É praticamente impossível que o curso da História seja mudado 15 anos depois, mas quem torce por Adnan tenta enxergar uma luz no fim do túnel que possa levar o já não tão jovem assim à liberdade.

Sarah Koenig, uma das minhas novas jornalistas favoritas.  (Reprodução/Serial Podcast)

Sarah Koenig, uma das minhas novas jornalistas favoritas. (Reprodução/Serial Podcast)

Koenig faz reflexões próprias, lê evidências do crime, entrevista pessoas envolvidas na época, reproduz fitas de depoimentos e faz tudo isso parecer uma incrível história de suspense, drama e tribunal. Há uma tendência de favorecer Adnan, que é um dos entrevistados, mas a jornalista sempre deixa claro que não descarta a participação do rapaz no crime, inclusive como o assassino.

“Poxa, mas é em inglês mesmo?”. Pois é: sendo um produto em áudio, sem chances para legenda – e só ler um roteiro, mesmo que na linguagem original, tira mais da metade da graça do programa. Ainda assim, você não precisa ser fluente ou nativo para entender Serial. Já veterana no rádio, Koenig fala pausadamente e com clareza, além de repetir várias vezes a mesma informação. As entrevistas e gravações, até pela qualidade do áudio, são um pouco mais complicadas de serem entendidas, mas a jornalista resume as falas mais rápidas. Se você perdeu alguma frase, aproveite que está escutando um podcast e simplesmente volte um pouquinho.

De cara, é impossível deixar de comparar Serial com outros produtos. A investigação minunciosa lembra “The Killing” e “True Detective”, enquanto a morte de uma adolescente, as suspeitas, bizarrices e relações entre os envolvidos têm uma pitada de “Twin Peaks”.

O Leakin Park, onde o corpo foi encontrado. Quase nada de Twin Peaks, né? (Reprodução/TRBMG)

O Leakin Park, onde o corpo foi encontrado. Quase nada de Twin Peaks, né? (Reprodução/TRBMG)

O podcast é um gênero popular nos Estados Unidos, com uma variedade bem maior do que o brasileiro. A impressão, entretanto, é a de que Serial causou alguma revolução: o público ficou perdidamente apaixonado pela história. Só no iTunes, foram 5 milhões de downloads – e esse dado com certeza já está bem desatualizado. Discussões com páginas de duração em fóruns e redes sociais reúnem várias pessoas com teorias próprias sobre o crime – de repente, todos nós viramos especialistas em Hae, Jay e Adnan.

Por outro lado (e sempre precisamos ouvir todos eles, como Koenig afirma sempre), há quem acuse Serial de ser um programa sensacionalista que se aproveita de uma tragédia. Em defesa do podcast, digo que é uma história como qualquer outra que vemos no telejornal – que, em muitos casos, faz explorações muito piores. Na série, inclusive, vemos aprofundamentos e reflexões que dificilmente um programa nacional consegue fazer.

O décimo e derradeiro episódio de Serial sai em 4 de dezembro e a expectativa está alta: será que algum plot twist pode mesmo fazer a diferença no crime? De qualquer forma, mesmo que a situação de Adnan não mude ou a verdade não seja revelada, uma coisa é certa. Os podcasts não serão mais os mesmos depois de Serial e não há como medir a quantidade de materiais de qualidade que surgirão depois dessa bomba explodir na internet – o próprio Serial deve ganhar uma segunda temporada com uma trama totalmente nova. Em outras palavras, lá vou eu esvaziar meu iPod para liberar um pouco mais de espaço.

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